Retorno

2 06 2017

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca.
Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.
Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo.”
Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo : Londres, Paris, Madagáscar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra ( Kafka e a Boneca Viajante ) onde o escritor imagina como como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.
No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca.
Ela era obviamente diferente da boneca original.
Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”.
Anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.
Em resumo, o bilhete dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.

menina-triste

May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)

Anúncios




Sorriso

27 08 2016

N’arrête jamais de sourire, même si tu es triste, car tu ne sais pas qui pourrait tomber amoureux de ton sourire.

Brunette Woman Laughing at Bubbles

Gabriel Garcia Màrquez – 1927/2014





A meio

18 06 2016

imageA tristeza de não ser mais do que aquilo que deixei de ser. De não fazer mais do que aquilo que deixei por fazer. Sou os sonhos que não realizei, os passos que não dei. Sou a vida, sim, que não vivi. E é assim que vivo, entre pensamentos de que sou e a lucidez, sempre temporária mas sempre triste, de que não sou. De que não consigo ser. Os dias, lentos e parcimoniosos, são leves brisas de tempo, folhas que o vento, sem esforço, carrega para o destino final. Escrevo porque só sei escrever. Escrevo porque nada sei fazer. E aguardo que, letra a letra, se vá, imagem a imagem, o sonho prometido. E aguardo que, sonho a sonho, se vá, promessa a promessa, o destino ansiado. Sou, mais do que o que sou, o que não sou: o que não fui capaz de ser. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Meio escritor, meio humano, meio poeta e meio insano, meio senhor, meio criança, meio sorriso na meia infância. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Fui o quase génio, o quase artista, o quase pedinte, o quase louco. Fui quase feliz, quase gente – o triste demente, quase. Sou quase, sou meio. Porque sou, mais do que o que sou, o que não sou. Porque sou, mais do que o que sou, o que não fui capaz de ser: o que não sou capaz de ser.

 Pedro Chagas Freitas





Adiante

26 02 2015

Adiante, viajante,

observa, repara nos destroços que te cercam. Sentes nas tuas asas a ventania que inexoravelmente te empurra para o futuro? Recordas quantas alegrias breves, quantas profundas tristezas, quantas melancolias, quantas palavras ocas e quantos eloquentes silêncios atravessaram a tua vida? E quantas feridas, quantas mortes? Quantos destroços permanecem!

Vês?

Abre as tuas asas e avança, viajante! Tu já não podes voltar. Tu não podes evitar a grande tempestade que sopra do paraíso. Eu, tu, nós não podemos recuar, nem suturar as feridas, nem despertar os mortos.

Adiante, viajante! Progride, recorda e sonha, mas não te iludas, a História é assim.

Esta história também.

broken_glass





Fantasia

7 12 2012

Devemos todos permitir-nos, de vez em quando, a fantasia da projecção, a possibilidade de nos vestirmos com os imaginários vestidos de noite e as casacas do que nunca foi e nunca será. É o que dá algum brilho às nossas vidas baças, e por vezes podemos escolher um sonho em vez de outro, e na escolha encontrar uma trégua da tristeza quotidiana. Ao fim e ao cabo, nunca conseguiremos, nenhum de nós conseguirá, deslindar o emaranhado de ficções que constitui essa coisa periclitante a que chamamos um eu.

Siri  Hustvedt  em  Verão sem homens





Para fugir da tristeza

7 08 2012

Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.
Não deixe ninguém receitar alegria como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdida: além de triste, se sentirá culpada. E você não tem culpa de sua tristeza. Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?
Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como já dizia o poeta Leopardi: “Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra”.
Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncio, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.
E para degustar sua tristeza vou recomendar também um prato melancólico: couve flor em névoa. Trata se de cozinhar essa flor branca, triste e consistente, no vapor. Devagar, com o cheiro do hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai cozinhando até ficar macia. E envolta em névoa, em seu vapor fumegante, acrescente azeite e alho e um pouco de pimenta, e salgue com suas próprias lágrimas. Então saboreie essa flor lentamente, abocanhando a no garfo, e chore mais, e mais ainda, que no fim ela sugará sua melancolia sem deixar você seca, sem deixá la tranquila, sem roubar a única coisa que é sua nesse momento, a única coisa que ninguém nunca poderá tirar de você, a sua tristeza; mas com a sensação de ter compartilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré histórica, com essa flor que os namorados nunca pedem nas floriculturas, com essa flor de couve que ninguém põe nos vasos, com essa anomalia, com essa tristeza florida, sua própria tristeza de couve flor, de planta triste e melancólica.


Héctor Abad  em   “Livro de receitas para mulheres tristes





Someone like you

27 07 2012