Acontecer

15 05 2018

O amor nem sempre chega quando queremos. Às vezes, ele simplesmente acontece, contrariando-nos a vontade.

 

V. C. Andrews    em    “A Saga Dos Foxworth – O Jardim Dos Esquecidos”

Anúncios




Alma

13 03 2018

Às vezes parece que só se vem ao mundo para enterrar os mortos. Para fazer o caminho que todos fazemos pelos outros e que, inevitavelmente, outros farão por nós. Perguntamos, para o vazio, porquê e o vazio responde-nos de volta, com nada. Perguntamos porque não entendemos que raio de viagem é esta. (…) 

Desejamos a vida mas odiamos a morte, como se separassem, como se não fizessem parte. Fazem. Mas continuamos sem entender. Lamentamos o tempo, o timing, a altura. Porque nunca é tempo, nunca é o timing, nunca é a altura. E marchamos cansados. Cansados de não entender, numa fila perfeita que não sabe para onde vai. Hoje arrastei a alma. Chorei esta e as outras perdas também. A minha tão fresca. Senti-me cansada. Cansada de não entender nada, nem como, nem porquê. Parece que a vida cansa e parece que a morte descansa, na pessoa que está ali serena, deixando-nos com o paradoxo. Estão os vivos tão cansados e os mortos, parece que descansam, porque talvez eles já tenham entendido. Talvez já saibam o que ainda não sabemos e por isso é que já podem descansar.

solidao 1

Marine Antunes





Pertencer

26 12 2017

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
{…}
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

menina-triste

Clarice Lispector     em     A Descoberta do Mundo





Paciente

8 07 2017

Ser paciente é simplesmente estar completamente aberto a cada momento, aceitando-o na sua plenitude, sabendo que, tal como as borboletas, as coisas acontecem no seu devido tempo.

blue_butterfly_2_3589711797-2

 Jon Kabat-Zinn





Someone like you

14 06 2017





Resistência

8 06 2017

Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir a sua infeliz trajectória para a frente.

Havia uma única resistência possível : não o levar a sério.

mar

Milan Kundera    em    A Festa da Insignificância





Coisas só minhas

23 11 2016

Porque as coisas e as pessoas que fazem parte da minha vida vão aos poucos entrando em mim, depois de algum tempo já não sei dizer o que é meu e o que é delas. Mesmo assim, bem no fundo, há coisas que são só minhas. Embora me assustem às vezes, é delas que mais gosto.

de-pe

 Caio F. Abreu     em     Limite Branco