Areia

27 06 2017

Tenho o santo horror da frieza calculada, da boa educação, do prudente juízo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espontânea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao pé dela e não será com certeza ao pé de mim… Comigo hás-de ter sempre que pensar e que fazer. Hás-de rir das minhas tolices, hás-de ralhar quando elas passarem a disparates (hão-de ser pequeninos…) e hás-de gostar mais de mim assim, do que se eu fosse a própria deusa Minerva com todo o juízo que todos os deuses lhe deram.

. Florbela Espanca    in    Correspondências .

braços

Anúncios




Assim é o Amor – O Árabe

15 03 2012

O amor não nos pertence.
Como acontece com a felicidade, ele apenas nos visita. E, enquanto se hospeda em nossa alma, faz mais colorido o dia, mais acolhedora a noite e mais belas as notas da canção.

O amor nos traz a Vida. E bem-aventurado é aquele que o conhece, ainda que por apenas um dia e uma noite; porque voará com as asas do sonho e conhecerá um novo mundo.

Como o templo adornado pelas mais viçosas flores, é o coração onde habita o amor. E o seu altar sagrado é o corpo amado, onde o amante encontra a celebração do Universo.

Sim. E o amor é puro como a alegria da criança, a nuvem branca no céu e o regato cristalino, que entre as pedras inóspitas da montanha faz ouvir a sua canção de esperança.

Comparais o amor à rosa; e eu vos digo que é afortunada a analogia. Porque, se como a rosa o amor é belo e de pétalas macias, como a rosa guarda também os seus espinhos.

É assim que é. E, se ao prático assusta a ameaça dos espinhos, apenas a beleza da rosa importa ao sonhador; e um e outro estão certos, ao temer os seus efeitos e cantar os seus encantos.

No manto encantado do amor, cintilam como estrelas as nossas mais belas ilusões; entretanto, é também nas suas dobras que se ocultam os mais amargos desencantos.

Na sua voz vibram as mais sedutoras promessas, que nos fazem encarar um futuro de harmonia e felicidade. No seu rasto, todavia, nada se pode ver além da saudade.

Necessitais atender ao seu chamado, porém. Porque é preciso conhecer o amor, para conhecer a si mesmo; para descobrir a magia da companhia e o tormento do ciúme.

Assim é o amor. E se faz presente no primeiro vagido do bebé , nos passos inseguros do infante ou no derradeiro suspiro daquele que bem soube viver o seu tempo.

Assim é o amor. Que se encontra no primeiro olhar, nutre-se do primeiro toque e no primeiro beijo descobre um infinito mar de sensações, que no orgasmo atingem a plenitude.

Assim é o amor. A porta pela qual chegamos a este planeta, a estrada que percorremos para o crescimento, a nossa maior motivação para seguir em frente dia após dia.

Assim é o amor. Que não nos pertence, mas está em nós.

Como a eternidade.





Memória poética

19 02 2011

Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que regista aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria.

(…)

O amor começa com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que com uma das suas palavras uma mulher se inscreve na nossa memória poética.

Milan  Kundera  em  “A insustentável leveza do ser”