Ano Novo

1 01 2017

Eu já nem desejo muito para mim e para todo ser vivo, irmão ou desconhecido: o dia pacificado, a noite serena. Alguém acha meu voto excessivo?

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. Carlos Drummond de Andrade    em     Receita de Ano Novo .

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O primeiro dia

7 05 2015





Silêncio 2

4 03 2015

Não poderiam os homens morrer como morrem os dias? Assim, com pássaros a cantarem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave, a brisa leve a tremer nas folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer naturalmente, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.

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José Luís Peixoto   em   Morreste-me





Only time

10 12 2013





Vida 12

21 10 2013

Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo.

Escrevo

Nuno Camarneiro





Meditação : controlo da mente?

13 04 2012

É difícil falar da intemporal beleza e riqueza do momento presente quando tudo acontece tão rapidamente hoje em dia. Mas quanto mais rapidamente as coisas acontecem, mais importante se torna habitarmos o intemporal. Caso contrário, podemos perder o contacto com dimensões da nossa humanidade que fazem toda a diferença entre a felicidade e a infelicidade, entre a sabedoria e a ignorância, entre o bem-estar e a confusão constante que acontece na nossa mente, no nosso corpo e no nosso mundo, e a que nos iremos referir como um ‘mal-estar’. Porque este nosso descontentamento é mesmo uma doença, apesar de não nos parecer. Às vezes referimo-nos coloquialmente a este tipo de sentimentos e condições, que são um tipo de ‘descontentamento’, como stress. E estes sentimentos normalmente são dolorosos. Pesam-nos. E implicam sempre um sentimento latente de insatisfação.

Em 1979 fundei uma Clinica de Redução de Stress. Olhando agora para trás no tempo, penso: “Que stress?” tanto o nosso mundo mudou, tanto se acelerou o ritmo das nossas vidas e tantos perigos aparecem hoje em dia à nossa porta.

E precisamente o que pretendemos desenvolver na nossa Clínica é permitir que (…) , não daqui a muitos anos se finalmente obtenha um sentimento de ter atingido algo de importante, se tenha saboreado a beleza intemporal da atenção meditativa e de tudo o que ela tem para oferecer (levando-nos em ultima análise a levar uma vida muito mais tranquila e satisfatória), mas sim a acedermos a essa intemporalidade neste mesmo instante – porque ela já nos está imediatamente acessível, mesmo debaixo dos nosso nariz, por assim dizer – e ao fazê-lo, ganhar acesso aquelas dimensões do possível que só nos estão neste momento inacessíveis porque nos recusamos a estar presentes, porque estamos seduzidos, entretidos ou assustados com o futuro ou o passado, levados por um conjunto de eventos e pelos padrões típicos das nossas reacções e da nossa dormência, atendendo aquilo a que classificamos de “urgente”, enquanto perdemos o contacto com o que genuinamente é importante, de facto vital para o nosso bem estar, para a nossa sanidade e mesmo para a nossa sobrevivência.

Nós fizemos da nossa absorção constante pelo passado e pelo futuro um hábito tão forte que, a maior parte do tempo, não temos qualquer noção do momento presente. Como tal, podemos sentir que temos muito pouco controlo, se é que algum, sobre os altos e baixos das nossas vidas e das nossas próprias mentes.

Jon Kabat-Zinn, Coming to our Senses – Healing Ourselves and the World Through Mindfulness





Assim é o Amor – O Árabe

15 03 2012

O amor não nos pertence.
Como acontece com a felicidade, ele apenas nos visita. E, enquanto se hospeda em nossa alma, faz mais colorido o dia, mais acolhedora a noite e mais belas as notas da canção.

O amor nos traz a Vida. E bem-aventurado é aquele que o conhece, ainda que por apenas um dia e uma noite; porque voará com as asas do sonho e conhecerá um novo mundo.

Como o templo adornado pelas mais viçosas flores, é o coração onde habita o amor. E o seu altar sagrado é o corpo amado, onde o amante encontra a celebração do Universo.

Sim. E o amor é puro como a alegria da criança, a nuvem branca no céu e o regato cristalino, que entre as pedras inóspitas da montanha faz ouvir a sua canção de esperança.

Comparais o amor à rosa; e eu vos digo que é afortunada a analogia. Porque, se como a rosa o amor é belo e de pétalas macias, como a rosa guarda também os seus espinhos.

É assim que é. E, se ao prático assusta a ameaça dos espinhos, apenas a beleza da rosa importa ao sonhador; e um e outro estão certos, ao temer os seus efeitos e cantar os seus encantos.

No manto encantado do amor, cintilam como estrelas as nossas mais belas ilusões; entretanto, é também nas suas dobras que se ocultam os mais amargos desencantos.

Na sua voz vibram as mais sedutoras promessas, que nos fazem encarar um futuro de harmonia e felicidade. No seu rasto, todavia, nada se pode ver além da saudade.

Necessitais atender ao seu chamado, porém. Porque é preciso conhecer o amor, para conhecer a si mesmo; para descobrir a magia da companhia e o tormento do ciúme.

Assim é o amor. E se faz presente no primeiro vagido do bebé , nos passos inseguros do infante ou no derradeiro suspiro daquele que bem soube viver o seu tempo.

Assim é o amor. Que se encontra no primeiro olhar, nutre-se do primeiro toque e no primeiro beijo descobre um infinito mar de sensações, que no orgasmo atingem a plenitude.

Assim é o amor. A porta pela qual chegamos a este planeta, a estrada que percorremos para o crescimento, a nossa maior motivação para seguir em frente dia após dia.

Assim é o amor. Que não nos pertence, mas está em nós.

Como a eternidade.