Pátria

5 10 2017

A minha pátria é a ausência, o lá de cá que nunca é.

A minha pátria é o negativo de mim, a morada que eu próprio forjei e não a que a vida me quer impor.

A minha pátria é a distância.

gaivotas_do_tejo

Vergílio  Ferreira   em   Conta-Corrente V

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Julgamento

12 09 2015

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.

Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

achados

Martha Medeiros





Vida 9

16 08 2012

“Parece que a vida é construída de um jeito que ninguém possa usufruir dela sozinho.
Assim como não é suficiente para as flores ter pistilo ou estame
(uma abelha ou a brisa deve transportar o pólen)
a vida contém a sua própria ausência que apenas outro ser pode preencher.

Parece que o mundo é a soma de todos os seres
e ainda assim não sabemos, nem nos é dito que completamos uns aos outros.

Levamos nossas vidas dispersos meio inconscientes dos que nos acercam
e de vez em quando nos é permitido encontrar a agradável presença de alguém.
Não é bom que o mundo seja construído assim com essa liberdade no desencadear dos fatos?

Uma abelha banhada em luz voa perto de uma flor que se abre.
Eu posso ainda ser o mel para alguém,
talvez você também seja pra mim um dia a minha brisa.”


– Boneca Inflável ( filme )





Amizade 2

14 10 2011

Construíram uma amizade defeituosa e assimétrica, feita de longas ausências e de muito silêncio, um espaço vazio e limpo em que ambos podiam voltar a respirar, quando as paredes da escola se tornavam demasiado apertadas para ignorar a sensação de sufoco.

Paolo  Giordano  em  A solidão dos números primos





Solidão 3

2 05 2011

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida… Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma….

Francisco Buarque de Holanda





A dor que dói mais

3 09 2010

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha de Medeiros