A outra pessoa

10 03 2012

Há vezes em que a outra pessoa é o eixo de tudo o que é possível conceber. Não se pode imaginar para lá dos seus detalhes, a imaginação é menor. Nesse instante, a outra pessoa é uma espécie de Las Vegas. Depois adormecemos e acordamos a pensar no seu rosto. Mas a outra pessoa não é apenas uma imagem. É um silêncio morno, monstro, a explodir significados que não somos capazes de entender, mas que distinguimos até no centro do nevoeiro mais sólido e que, se for preciso, defendemos até a nossa pele se gastar, até gastarmos a pele e, claro, morrermos.

(…)

Há vezes em que a outra pessoa é uma má recordação e, quanto mais tentamos afastá-la daquilo que nos ocupa o cérebro, mais a vemos afixada nas paredes e repetida no telejornal.(…) Estamos feridos e, por isso, temos pensamentos terríveis. Podemos construir pequenos infernos privados e viver lá durante longas temporadas, fechamos as janelas, baixamos os estores e, em qualquer estação do ano, a temperatura é sempre a mesma. Dessa maneira, tudo o que antes era vida transforma-se em veneno.

(…)

Há vezes em que a outra pessoa é todo o infinito que se pode imaginar a partir de um instante preciso, ou de uma certa forma de olhar, ou de algo que se ouviu dizer. Existe paz porque o futuro é tão vago que nada o pode desviar da sua rota de incerteza.

E há vezes em que a outra pessoa somos nós.

Então, não sabemos nada, exactamente como em todas as outras vezes.

José Luís Peixoto

Anúncios