Margem

30 11 2016

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”

Bertolt Brecht




Coisas só minhas

23 11 2016

Porque as coisas e as pessoas que fazem parte da minha vida vão aos poucos entrando em mim, depois de algum tempo já não sei dizer o que é meu e o que é delas. Mesmo assim, bem no fundo, há coisas que são só minhas. Embora me assustem às vezes, é delas que mais gosto.

de-pe

 Caio F. Abreu     em     Limite Branco





Irrelevância

16 11 2016

A noção e a consciência plena da irrelevância individual, da minha própria irrelevância, do facto de tudo aquilo que eu escrevo acabar por ser esquecido, mais tarde ou mais cedo (e de eu próprio ser esquecido, dado tudo tender para o esquecimento mesmo as memórias, aquilo de que hoje me lembro e de que todos nos lembramos), o facto de a própria eternidade caminhar a passos largos no sentido do esquecimento, tudo isso me dá uma enorme tranquilidade e uma enorme serenidade.

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Manuel  António  Pina





Voo 2

9 11 2016

Somos assim : sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar, é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece.

O vazio é o espaço de liberdade, ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são onde as certezas moram.

let-it-goFiódor Dostoiévski





Europa

2 11 2016

A Europa decrépita revela-se angustiada : atingiu o alegado objectivo que repisava há décadas e, agora, esforça-se por, vigilante, afastar tudo o que lhe exija reflexão, renovação, criatividade.

A barbuda Europa assemelha-se ao velho avarento que dá uma bengalada na jovem que convida para dançar, quando é a sua vez, porque só lhe vem à cabeça que querem o seu dinheiro.

europa

Imre Kertész ( 1997)