25 06 2013

  Sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas – toda a espécie de coisas, seja o que for – sozinho. Para ser ainda mais preciso, diria que sou o género de homem que não se importa minimamente de estar só. Digo-o com toda a clareza, não sinto angústia diante da solidão. Não considero que passar uma hora ou duas por dia a correr, sem trocar palavra com ninguém, e depois outras quatro ou cinco horas sozinho à minha secretária, seja duro nem aborrecido. Desde novo que sempre tive essa tendência. Preferia mil vezes ler livros ou ficar entretido a ouvir música do que estar na companhia de alguém. Nunca senti qualquer dificuldade em imaginar o que poderia fazer quando me encontrasse só, entregue à minha sorte.

corredor

Haruki Murakami (Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo)





Melancolia

19 06 2013

Melancolia era uma palavra interessante naqueles dias: a palavra perfeita para adjectivar a sua condição, a de um sentimento de perda sem causa definida : ainda tinha família; ainda tinha a possibilidade de um futuro; ainda estava vivo; e, contudo, a cada dia que passava, começava a acreditar que algumas pessoas não eram feitas para lidar com o mundo no seu estado natural: que algumas pessoas só o conseguiam suportar distorcendo-o, nublando-o, observando-o do outro lado de um espelho.

Contemplar

João  Tordo   em   O  Ano sabático





Momento

11 06 2013
 
Chega um momento na vida em que temos de mudar a nossa história. Chega um dia em que temos de aceitar que existe quem não nos ame ainda que afirme que sim.
 
Chega um instante em que entendemos que mais nada nos prende ao lugar que nos viu crescer. A alma parte ferida, mas o coração clama por novas narrativas. A desilusão é grande, mas a vontade de partir é ainda maior.
 
 
Chega um tempo em que deslindamos todas as mentiras que nos agarraram por demasiado tempo a quase nada.
 
Chega enfim um momento em que a vontade de calcorrear um novo caminho ganha convicção dentro de nós. Não sabemos para onde ele nos leva. Só nos importa saber se nos afasta o suficiente de onde já não queremos estar.
 

José Micard Teixeira

 
caminho3




Cegueira da Razão

5 06 2013

Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como vão viver os que vêm depois. A única coisa que importa é o triunfo de agora. É a isto que eu chamo “cegueira da razão”.

El Cronista, Buenos Aires, 11 de Setembro de 1998
In José Saramago nas Suas Palavras