Histórias

26 08 2012

…nem sempre as histórias acontecem, e nem sempre é por culpa nossa, ou do outro. Apenas não tinha que acontecer.

(in)Felizmente.

heartstorm





Vida 9

16 08 2012

“Parece que a vida é construída de um jeito que ninguém possa usufruir dela sozinho.
Assim como não é suficiente para as flores ter pistilo ou estame
(uma abelha ou a brisa deve transportar o pólen)
a vida contém a sua própria ausência que apenas outro ser pode preencher.

Parece que o mundo é a soma de todos os seres
e ainda assim não sabemos, nem nos é dito que completamos uns aos outros.

Levamos nossas vidas dispersos meio inconscientes dos que nos acercam
e de vez em quando nos é permitido encontrar a agradável presença de alguém.
Não é bom que o mundo seja construído assim com essa liberdade no desencadear dos fatos?

Uma abelha banhada em luz voa perto de uma flor que se abre.
Eu posso ainda ser o mel para alguém,
talvez você também seja pra mim um dia a minha brisa.”


– Boneca Inflável ( filme )





Para fugir da tristeza

7 08 2012

Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.
Não deixe ninguém receitar alegria como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdida: além de triste, se sentirá culpada. E você não tem culpa de sua tristeza. Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?
Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como já dizia o poeta Leopardi: “Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra”.
Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncio, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.
E para degustar sua tristeza vou recomendar também um prato melancólico: couve flor em névoa. Trata se de cozinhar essa flor branca, triste e consistente, no vapor. Devagar, com o cheiro do hálito que a boca exala nas lamentações, ela vai cozinhando até ficar macia. E envolta em névoa, em seu vapor fumegante, acrescente azeite e alho e um pouco de pimenta, e salgue com suas próprias lágrimas. Então saboreie essa flor lentamente, abocanhando a no garfo, e chore mais, e mais ainda, que no fim ela sugará sua melancolia sem deixar você seca, sem deixá la tranquila, sem roubar a única coisa que é sua nesse momento, a única coisa que ninguém nunca poderá tirar de você, a sua tristeza; mas com a sensação de ter compartilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré histórica, com essa flor que os namorados nunca pedem nas floriculturas, com essa flor de couve que ninguém põe nos vasos, com essa anomalia, com essa tristeza florida, sua própria tristeza de couve flor, de planta triste e melancólica.


Héctor Abad  em   “Livro de receitas para mulheres tristes





Solidão 4

1 08 2012

Ora, a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é,
sempre vivi só, Também eu, mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.

José  Saramago